

" O amor, para mim, consistia não em tal ou tal sintoma, em certos olhares, numa confissão, em determinada circunstância exterior, contra os quais poderia haver-me acautelado. Encontrava-me como esses miasmas invisíveis espalhados na atmosfera que me rodeava, no ar, na luz, na estação moribunda, no isolamento da minha vida, na aproximação misteriosa dessa outra existência que parecia também isolada, nesses longos passeios, que não me afastavam dela senão para melhor conhecer a atracção inconsciente que me fazia aproximar, no seu vestido branco visto de longe por entre os pinhais da montanha, nos cabelos negros que o vento do lago sacudia sobre a borda do seu barco, nos passos pela escada, na luz da sua janela, no leve ranger do soalho do quarto sob os seus pés pequeninos, no ruído da sua caneta sobre o papel, quando escrevia, no silêncio dessas longas noites de Outono, que ela passava solitariamente a ler, a escrever, a meditar a poucos passos de mim, na fascinação, enfim, dessa formosura fantástica que eu vira de sobejo sem olhar para ela e que eu tornava a ver quando cerrava os olhos, através da parede, como se esta fosse transparente para mim." Continua