sexta-feira, 8 de maio de 2009

"RAFAEL" / 24



Precipitámo-nos no barco para erguer a moribunda do seu leito de espuma, e levá-la para além dos rochedos. Pus-lhe a mão sobre o coração como a teria colocado sobre um globo de mármore, aproximei o meu ouvido dos lábios como o aproximaria da boca de uma criança adormecida. O coração batia irregularmente, mas com força: a respiração era sensível e quente; compreendi que se tratava apenas de um longo desmaio, em consequência do terror e do frio da água. ( continua )

terça-feira, 3 de março de 2009

RAFAEL /23


" Renunciei aos meus passeios pelas montanhas quando as primeiras neves começaram a coroar os pinheiros nos altos cumes da Sabóia. O calor suave e prolongado do fim de Outubro concentrara-se no fundo do vale. O ar estava ainda tépido nas margens e sobre as águas do lago. Na extensa alameda de choupos que para lá conduz, havia, ao meio dia, uma fraca claridade de sol, oscilações de ramos e murmúrios de brisas, que me encantavam." Continua              

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

RAFAEL / 22




" Mas a família do velho médico não tinha as mesmas razões para respeitar esse segredo. A curiosidade natural que despertam os hospedes nestas casas que vivem de estranhos, interpretava à mesa todas as circunstâncias, todas as probabilidades, as mais simples noções que podia colher acerca da jovem estrangeira. Sem interrogar e evitando mesmo provocar a conversação a seu respeito, tive conhecimento do pouco que se principiava a saber dessa existência oculta. Interrompida debalde a conversa que todos os dias se repetia às horas da comida sobre o mesmo assunto; homens, mulheres, crianças, raparigas, banheiros,criados da casa, guias das montanhas, barqueiros dos lagos, a todos ela impressionava, maravilhara e enternecera sem falar a pessoa alguma. Atraíra o pensamento, o respeito, a conversação, a admiração de toda a gente. " Continua

domingo, 1 de fevereiro de 2009

RAFAEL/21



" Depois, quem era esta mulher? Uma criatura como eu ou uma dessas aparições, desses meteoros vivos que perpassam pelo céu da nossa imaginação, num rápido deslumbramento da vista? E o seu coração estaria livre para corresponder ao meu? Seria crível que tão deslumbrante beleza tivesse feito a travessia do mundo e chegado aquela fascinante maturação que é quase o declinar da mocidade, sem ter abrasado na sua passagem alguém em que os seus olhos houvessem pousado?
Tudo isto eu dizia a mim mesmo, para afastar de mim a obsessão involuntária, desanimada, e ainda assim deliciosa. Não queria informar-me a seu respeito. Achava indigno do meu estoicismo querer desvendar o incógnito. Correspondia mais ao meu sentir, era mais agradável à minha própria dignidade, deixar flutuar o espírito nessa hesitante ignorância." Continua

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

RAFAEL/ 20


" O aposento que lhe pertencia era contíguo ao meu quarto, apenas separado por uma porta de carvalho fechada com dois ferrolhos. Eu podia confusamente distinguir-lhe os passos, o leve roçar do vestido, o ruído das folhas do livro, que os seus dedos viravam; algumas vezes até me parecia ouvir-lhe a respiração. Junto a essa porta colocara eu instintivamente a mesa em que escrevia e sobre a qual punha o candeeiro, porque me sentia menos só ouvindo esses leves movimentos de vida em torno de mim. Imaginava viver acompanhado com essa vizinhança desconhecida, que insensivelmente acalentava todos os meus dias. Numa palavra, conservava em segredo todos os meus pensamentos, todos os disvelos e subtilezas da paixão, sem mesmo desconfiar que amava." Continua

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

" RAFAEL/ 19



" O amor, para mim, consistia não em tal ou tal sintoma, em certos olhares, numa confissão, em determinada circunstância exterior, contra os quais poderia haver-me acautelado. Encontrava-me como esses miasmas invisíveis espalhados na atmosfera que me rodeava, no ar, na luz, na estação moribunda, no isolamento da minha vida, na aproximação misteriosa dessa outra existência que parecia também isolada, nesses longos passeios, que não me afastavam dela senão para melhor conhecer a atracção inconsciente que me fazia aproximar, no seu vestido branco visto de longe por entre os pinhais da montanha, nos cabelos negros que o vento do lago sacudia sobre a borda do seu barco, nos passos pela escada, na luz da sua janela, no leve ranger do soalho do quarto sob os seus pés pequeninos, no ruído da sua caneta sobre o papel, quando escrevia, no silêncio dessas longas noites de Outono, que ela passava solitariamente a ler, a escrever, a meditar a poucos passos de mim, na fascinação, enfim, dessa formosura fantástica que eu vira de sobejo sem olhar para ela e que eu tornava a ver quando cerrava os olhos, através da parede, como se esta fosse transparente para mim." Continua 

sábado, 27 de dezembro de 2008

Rafael/ 18


" Entretanto, um dia, passando, antes da noite, pela pequena porta do jardim por debaixo das latadas, vi mais de perto a estrangeira, que se aquecia aos frouxos raios de sol, sentada junto a um muro virado ao poente. Não ouvira o ruído da porta, que eu tornara a fechar. Julgava-se completamente só. Contemplei-a durante muito tempo, sem que me visse. Entre mim e ela não existia senão a distância de vinte passos e a cortina de uma latada despida de pâmpanos pelos primeiros frios. Só a sombra das últimas parras lutava com os raios do sol que pareciam flutuar-lhe no rosto. A sua estatura mostrava ser maior do que a ordinária, como a dessas banhistas de mármore, envolvidas em roupagens cuja estatura admiramos sem lhes distinguir bem as formas." Continua. 

sábado, 20 de dezembro de 2008

RAFAEL/17



" Às vezes, á noite. chegando á janela do jardim, avistava outra janela aberta, alumiada por uma luz, a pouca distância da minha, e uma figura de mulher, encostada como eu, que afastava da fronte, com a mão, as longas madeixas de cabelo, para contemplar também o jardim resplandecente de luar, as montanhas e o firmamento. Nesse claro- escuro, eu só distinguia um perfil correcto, pálido, transparente, rodeado de ondas negras dum cabelo liso e unido ás fontes. Essa figura desenhava-se no fundo da janela, iluminada pelo candeeiro do quarto. Também me chegara por vezes o som duma voz feminina proferindo algumas palavras ou dando ordens. A acentuação ligeiramente estrangeirada, ainda que pura, a vibração um tanto febril, lânguida, agradável, mas extraordinariamente sonora dessa voz, que eu ouvira sem perceber as palavras, comovera-me." (continua)   

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